Em janeiro deste ano, o governo federal arrecadou R$ 325,8 bilhões — o maior valor da série histórica para o mês. O número impressiona. A manchete celebra. Mas o que ele realmente revela sobre a saúde das contas públicas brasileiras?
Mais do que comemoração, o dado merece uma leitura crítica.
O crescimento veio de onde?
O salto na arrecadação não é resultado de uma economia mais produtiva ou de uma base tributária mais ampla. Ele decorre, principalmente, de aumentos de tributos — uma escolha política, não um sinal de expansão econômica estrutural.
Isso importa porque os dois fenômenos têm consequências muito diferentes. Crescimento via aumento de impostos pressiona empresas e famílias. Crescimento via expansão econômica gera empregos, renda e base tributária sustentável.
Recorde na entrada, déficit na saída
Aqui está o dado que deveria estar no centro do debate: mesmo com arrecadação histórica, as projeções indicam resultado fiscal negativo ao longo do mandato atual.
Não é um problema novo. Os dois mandatos anteriores do mesmo presidente também fecharam no vermelho.
O padrão se repete porque o problema não está na receita — está na dinâmica de gasto. O dinheiro público aumenta. Os gastos oficiais aumentam ainda mais.
O nó fiscal brasileiro
O Brasil tem um dos maiores níveis de carga tributária do mundo em desenvolvimento. E ainda assim convive com déficits estruturais. Isso aponta para uma conclusão desconfortável: arrecadar mais, sem controle de gasto, não resolve o desequilíbrio fiscal.
Enquanto o debate público se concentra em quem vai pagar a conta — empresas, ricos, classes médias —, a questão mais fundamental segue em segundo plano: para onde vai o dinheiro, e com qual eficiência.
O que acompanhar
Nos próximos meses, vale monitorar:
- A evolução do resultado primário ao longo do ano
- Quais rubricas de gasto continuam crescendo acima da receita
- Se o arcabouço fiscal conseguirá impor algum limite real à expansão das despesas
Recorde de arrecadação é, no máximo, metade da história. A outra metade está no lado do gasto — e essa ainda não tem final feliz.
Você acha que o problema fiscal brasileiro é resolvível pelo lado da receita — ou inevitavelmente passa por reformas no gasto? Deixa sua perspectiva nos comentários.