O termo ESG – sigla para Environmental, Social and Governance – surgiu como uma ferramenta robusta de gestão de riscos e geração de valor sustentável no mundo corporativo. Impulsionado por métricas objetivas, regulações e a crescente demanda por transparência, o ESG se consolidou nas últimas duas décadas como uma linguagem comum entre empresas, investidores e organismos internacionais atentos à resiliência dos negócios em um cenário de crise climática, desigualdade e instabilidade política.
No entanto, em certos círculos, essa abordagem técnica tem sido distorcida. O ESG passou a ser visto, por alguns, como parte de um projeto ideológico associado à chamada “agenda woke” – expressão que reúne pautas identitárias ligadas a raça, gênero, sexualidade e justiça social.
Esse deslocamento semântico tem trazido efeitos colaterais preocupantes: confusão conceitual, polarização política e desconfiança sobre a seriedade da agenda ESG.
Retomar o que importa: a essência do ESG
Antes de mais nada, é essencial separar fatos de narrativas. ESG nunca foi – e não deve ser – um campo de batalha ideológica. Em sua origem, trata-se de um conjunto de critérios objetivos de avaliação de riscos não financeiros. Entre eles, destacam-se:
Ambiental: emissões, uso de recursos naturais e gestão climática;
Social: condições de trabalho, diversidade e direitos humanos;
Governança: integridade, ética e transparência corporativa.
Ou seja, ESG é, acima de tudo, inteligência estratégica e financeira para empresas que buscam perenidade e relevância no mercado.
Quando o discurso esvazia a prática
Adotar pautas sociais relevantes – como diversidade em conselhos e combate ao trabalho escravo – é parte legítima da agenda ESG. Mas quando isso dá lugar a ativismo performático, cancelamentos virtuais e narrativas sem lastro técnico, o ESG perde força, credibilidade e, principalmente, seu propósito transformador.
O alerta não é novo. John Elkington, criador do conceito triple bottom line, já propôs, em 2018, um “recall voluntário” do termo por entender que ele havia sido mal compreendido e banalizado. A crítica dele – ainda atual – reforça os riscos de se transformar uma estratégia em puro marketing.
O efeito dominó: do ruído às consequências reais
Nos Estados Unidos, a distorção do conceito já produziu desdobramentos concretos: diversos estados aprovaram leis anti-ESG, proibindo fundos públicos de considerar critérios ambientais ou sociais. Gestoras de ativos, por sua vez, passaram a suavizar o discurso para evitar conflitos com governos locais.
O debate virou trincheira. De um lado, defensores entusiasmados da agenda ESG, muitas vezes desconectados da realidade empresarial. Do outro, opositores ideológicos que ignoram os riscos da crise climática, da desigualdade e da má governança para os negócios.
O papel (esquecido) da tributação no ESG
Neste cenário, a tributação precisa entrar na conversa. Como ferramenta de indução de condutas e realocação de recursos, ela é decisiva para dar lastro econômico à agenda ESG.
A transição para uma economia sustentável exige:
Incentivos tributários bem estruturados;
Precificação justa do carbono;
Isenções condicionadas a resultados mensuráveis;
Penalização fiscal a atividades poluentes.
Sem isso, não há coerência. Não basta adotar compromissos ambientais e, ao mesmo tempo, usufruir de benefícios fiscais para setores altamente emissores. Investidores e consumidores já percebem essa contradição.
Além disso, a reforma tributária brasileira inseriu a proteção ambiental como princípio estruturante do sistema tributário nacional, alinhando nossa legislação a debates internacionais como a taxonomia verde europeia ou os créditos fiscais para inovação limpa.
ESG precisa de técnica, não de slogans
O ESG não deve agradar apenas pela estética. Ele precisa funcionar. Para isso, é urgente:
Retomar sua linguagem técnica;
Reforçar padrões de mensuração;
Consolidar métricas de impacto real.
Trata-se de antecipar riscos, proteger cadeias produtivas e reduzir litígios. Não de agradar ou confrontar ideologias.
Conclusão
O ESG, quando bem aplicado, é uma alavanca estratégica, não um modismo. Com base técnica, segurança jurídica e responsabilidade fiscal, ele pode transformar empresas – e o mundo. Mas isso exige foco, coerência e a coragem de afastar o ruído político em favor de uma agenda que, mais do que simbólica, precisa ser concreta, mensurável e estratégica.
Autores:
Luis Wolf Trzcina – Mestre em Direito Tributário no Brasil e nos EUA e professor do MBA da FGV.
José Andrés Lopes da Costa – Advogado, mestre em direito tributário internacional e desenvolvimento pelo IBDT-SP e sócio do DCLC Advogados.